DESABAFO – "Nove amigos, noves fora nada…"

Por Jacir Moraes*

Jacir Moraes: “antes só do que mal acompanhado”

Nos últimos três anos, eu tenho passado por um processo que eu considero desconto de pecados e que Deus me perdoe. Senão, vejamos. Em conseqüência da diabetes, perdi quase que totalmente a visão (restaram apenas 5%). Depois, caí dentro de casa, quebrei o fêmur e, mais recentemente, sofri um AVC (Acidente Vascular Cerebral), o que me deixou fora de combate por todo este período, eis aí o motivo da minha ausência nos acontecimentos da cidade de São Luís.


Diante da gravidade pela qual passei, fui obrigado a me aposentar por invalidez e, para fazer este relato, contei com a colaboração da minha amiga,  jornalista Sílvia Tereza, na digitação e edição do texto. Todos esses eventos me fizeram permanecer em casa 24 horas por dia. E sem poder desenvolver a minha atividade, passei a explorar mais a minha  mente e comecei  a relembrar o passado, atento ao presente, e imaginar coisas que ainda estão inéditas. E a partir de agora, espero expressar meus sentimentos.


Antes de me aposentar, eu já estava afastado do jornal O Debate, veículo que eu fundei há 30 anos e dirigi. Por força de uma ação judicial, fui afastado da direção do periódico numa manobra capitaneada por um pequeno advogado  que se diz influente no meio jurídico, homem com mais ou menos um e vinte de estatura, apelidado de tamborete de forró ou sagüi pelas orelhas avantajadas e o corpo minúsculo.


Uma das coisas que mais me chamou atenção ao longo desses mais de três anos foi a ausência de muitos que eu pensava que eram meus amigos e cheguei à conclusão de que não os tenho. Mas fiquei a me perguntar: onde estão os meus amigos? E uma voz do subconsciente respondia: eles não existem, eles não existem, eles não existem…, seu teimoso!


Recentemente, com dificuldade, eu ensaiei umas voltinhas de carro pela cidade que está toda revirada como destroços de guerra. Diria, tudo fuçado e nada concluído ou realizado. Parei ali na antiga Praça João Lisboa, hoje propriedade dos travestis, sobre os quais nada tenho contra, saltei do carro e um velho jornaleiro se aproximou de mim e me chamou pelo meu nome: “E aí, seu Jacir, tudo bem?” E, prontamente, respondi que sim. Ele me perguntou se eu estava só. Disse que sim. Depois, indagou: “mas o que foi que houve, onde estão os famosos  amigos que te cercavam?”.  Eu então lhe disse que isso era coisa do passado e que hoje os meus amigos somados não chegam a  dois dígitos.


Cheguei a tal conclusão, depois de recorrer à matemática, ciência exata: mentalizei de um a nove, e nove noves fora nada. Ou seja, estou sozinho. Mas como diz o adágio popular: antes só do que mal acompanhado.


Com a doença da qual eu fui vítima e com a quebradeira em que eu vivo, os mui amigos desapareceram;  conto hoje apenas com três cuidadoras . Mas por isso, eu não me abato. A aposentadoria que recebo da Previdência e a providência divina me são suficientes para degustar, de vez enquando, uma dose de uísque. Agora, sozinho…



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* Jacir Moraes é jornalista, fundador do jornal O Debate, ex-secretário de Comunicação da Assembleia Legislativa, trabalhou 26 anos na rádio Timbira do Maranhão, foi editor do Diário Oficial do Estado e ex-presidente da Abgraf – regional Maranhão e, a partir de agora, é colaborador do Blog da Sílvia Tereza.

Diferenças e coincidências entre São Luís e Roma

Roma, na Itália, conta hoje com 19 subprefeituras;  São Luís também deve adotar modelo descentralizador


 Gilberto Casciani e o prefeito de Roma durante campanha
Descentralizada ao extremo, a Itália diverge muito do Brasil no quesito política. E a primeira grande diferença está no voto. Os brasileiros são obrigados a votar; os italianos não. Para eles, o voto é apenas um direito cívico. Porém algumas semelhanças podem ser notadas. Roma tem em sua estrutura 19 subprefeituras ou “circunscrições”, como preferem chamar os italianos. Por outro lado, O Centro Histórico romano ainda encontra-se dividido também em 22 regiões (“rioni” do Latim).

No Brasil, as subprefeituras já existem em São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e podem se tornar realidade também  em São Luís do Maranhão. A proposta foi apresentada pelo então candidato petecista, Edivaldo Holanda Jr, e teve aprovação popular durante a campanha pela sucessão municipal em outubro de 2012.

Apesar de ainda não ter anunciado quando vai implantar o modelo descentralizador das subprefeituras, o prefeito de São Luís, Edivaldo Holanda Júnior, já reiterou que vai encaminhar, em breve, projeto neste sentido para apreciação da Câmara Municipal de São Luís. 

Em Roma, que respira o regime parlamentarista, as subprefeituras (“circoscrizione” em italiano), como pôde observar esta editora em recente experiência na capital italiana, representam, cada uma, um conjunto de bairros; têm além de um subprefeito, escolhido pelo povo, pequenas câmaras municipais que ajudam na administração. 

Em São Luís e nesses outros estados brasileiros que estão “namorando” esse sistema descentralizador europeu, vistos em países como Itália e Portugal, a grande diferença é que esses subprefeitos são escolhidos pelos próprios prefeitos e não existem essas pequenas câmaras. Mas a ideia de criar as subprefeituras já é muito significativa, pois elas vão dinamizar, e muito, a forma de governar e a eficiência das máquinas públicas.

Dinamismo – Toda essa estrutura assegura à grande Prefeitura de Roma (“comune” em italiano) uma descentralização, capaz de garantir maior poder de ação e de resolução às demandas e problemas do dia-a-dia. Por exemplo, se aparecerem buracos, falta de iluminação ou outro tipo de problema mais setorizado no Centro de Roma, quem resolve é a subprefeitura que aglutina os bairros daquela região. 

Diferente de São Luís do Maranhão e, claro, de todo o Brasil, em Roma, o prefeito (“sindaco” em italiano) da capital, Gianni Alemanno, é também o presidente da Câmara Municipal (“Consiglio Comunale” em italiano) e assiste às sessões junto aos vereadores (“consiglieri”), onde tem que responder a tudo olhando nos olhos desses parlamentares. Em caso de cassação de mandato, o Parlamento é quem escolhe o sucessor e os secretários municipais (lá chamados de “assessori”). 



Campanha política em Roma: eleitor vale ouro 


Jornalista Sílvia Tereza e o prefeito de Roma, Gianni Alemanno
Esta editora acompanhou, na Itália, um mês inteiro e intenso de campanhas pelas ditas subprefeituras de Roma, em 2011, ao lado do presidente da Comissão Internacional e Regional de Lazio, Gilberto Casciani, e do prefeito da capital italiana, Gianni Alemanno. Candidatos a subprefeitos e às câmaras têm uma forma bem diferente de abordagem eleitoral, já que lá ninguém é obrigado a votar; o eleitor é extremamente cobiçado e mimado – vale ouro mesmo. 

Os acontecimentos políticos são como eventos sociais. Existe o falatório de praxe, que é sempre seguido de coquetéis ou jantares. Os eleitores, assim como os postulantes, apresentam-se nos locais de forma elegante, muitas das vezes um luxo. Não se vê os malditos carros de som, ninguém com bandeira em punho, apitaços, carreatas, todos apenas ouvem, pouquíssimos aplaudem, muitos torcem o nariz e chegam a interromper os candidatos para dizerem o que lhes der vontade.

As campanhas, como no Brasil, são feitas via veículos de comunicação. Quase sempre, elas são muito tensas e com fortes ataques entre candidatos.

Esta editora na sala de reuniões da Câmara de Roma, na Itália
Em Roma, os candidatos a essas subestruturas estão ligados a correntes políticas que podem pertencer ou não ao grupo do prefeito da capital. Por exemplo, o prefeito Gianni Alemanno participa do processo eleitoral, garantindo apoio aos postulantes do seu grupo que lhe darão sustentação quando da disputa pela Prefeitura da capital. Lá, os subprefeitos e vereadores são também escolhidos pelo voto popular.  

Roma é a capital da Itália e do maior Estado (região) daquele país: Lázio, onde o governo é exercido por uma Junta Governamental, instância executiva e legislativa. Este grupo, eleito por voto popular a partir da Assembleia Legislativa (“Consiglio Regionale” em italiano) tem um presidente, que funciona como se fosse um governador no Brasil com poderes semelhantes.