Belchior, um gênio nas mãos de “bandidos"


“Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos…Viver é melhor que sonhar…”


Por Vicente Telles*

Vicente Telles colabora com o Blog da Sílvia Tereza

Há perigo na esquina? Sim, há perigos em todas as esquinas. A indústria cultural não perdoa; massacra. A mesma que endeusa fazendo alguns artistas perderem o foco, hoje é a algoz do nosso querido amigo Belchior, que passa por uma situação diferente e constrangedora, muito em função de vivermos num país sem memória cultural. Vivemos tempos descartáveis, onde os artistas sofrem uma pressão mercadológica tremenda, para que sempre estejam em evidência, pois aqui tudo é fugaz e esquecido rapidamente.


Assim, verdadeiros gênios são desprezados em função de um mercado cada vez mais, alienantemente, idiota e oportunista. São tempos do “camaro amarelo”, das “cachorras e das preparadas”, das letras que depreciam as mulheres e que as tornam servis pela força vil… mas que rendem muita grana.


Não estou aqui a fazer nenhuma apologia a atitudes que não obedeçam às realidades do capitalismo, somente penso que o cantor e compositor Belchior merece respeito da mídia e de todos nós. A obra dele exige respeito. Penso que tínhamos por obrigação não deixar isso acontecer pela contribuição dada por esse artista ao país. Ele é um homem de rara inteligência, poesia e música inquestionáveis.


O fato de vários artistas passarem por situações difíceis evidencia a forte influência da mídia no sentido de manipular tendências e gostos musicais, rotulando e até rejeitando os artistas que, porventura, possuem estilos diferentes dos que a tirania musical impõe. Outro fator determinante neste processo dar-se por culpa do governo federal por não exigir uma política justa, quanto aos direitos autorais.


É de responsabilidade de um país cuidar da cultura com carinho. Na atualidade, sabemos que são desprezados vários ícones da música popular brasileira que, num passado, viveram glórias e sucessos, contribuindo com a sua arte e cultura para o desenvolvimento do país, pois foram as obras destes artistas que nos prestaram relevantes esclarecimentos, no sentido de compreender, entender e questionar aspectos culturais, sociais e políticos.


Devido ao descaso de não haver uma política voltada para os interesses dos artistas, é que os mesmos passam por dificuldades financeiras sérias.  Belchior, como indivíduo, pode fazer o que bem entender que nada maculará a sua obra, pois ela é eterna e está registrada para sempre na história da música popular brasileira.


Belchior é o autor dos clássicos: “Como os nossos Pais”, “Velha Roupa Colorida”, “Mucuripe”, “Apenas um rapaz latino americano”, “Paralelas”, “Coração Selvagem”, “Tudo outra vez”, “Comentários a respeito de John” e etc. Deveria estar sendo reverenciado, visto que, através da sua arte, levou o nome e o orgulho do nosso país a vários cantos do mundo, o que muito nos alegra enquanto fãs incondicionais destegrande autor e intérprete do “puro cancioneiro popular brasileiro”.


Os nossos músicos precisam de um órgão de classe que realmente os representem. A Ordem dos Músicos do Brasil deveria zelar pelos seus associados, uma vez que cobra mensalidades e arrecada por todos os shows nacionais e internacionais que são feitos em todo país, uma arrecadação considerável, que deveria ser usada, a princípio, para beneficiar a música nacional brasileira de qualidade, bem como os próprios músicos, mas tal fato não acontece, pois a entidade nada faz em prol dos músicos e compositores.


Se tivessem esse olhar diferenciado, um compositor do quilate do Belchior não estaria passando por tantos constrangimentos, pois bem sabemos que o interesse da mídia é a exploração do infortúnio alheio, que a levará a aumentar o índice do Ibope.


Mas o que espero do Belchior é a inquietação poética, o senso de libertação de seu texto, a construção. Relembrando o nosso grande artista em “foi com medo de avião que segurei pela primeira vez a tua mão”, hoje entendo aquele medo. Não era de altura, mas da queda, pela falta de solidariedade humana e pela incompreensão de produtores e empresários que ele ajudou a enriquecer com a sua arte e que hoje o crucificam.

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*** Vicente Telles é colaborador do Blog da Sílvia Tereza.

Ele é maranhense de Santa Inês, cantor e compositor que hoje atual no Centro-sul do país; teve participações em programas como o Domingão do Faustão e Luciano Huck e hoje é presidente da ABRACNE – Associação Brasileira de Arte e Cultura do Nordeste – que atua no Centro de Tradição Nordestina Luiz Gonzaga, na feira de São Cristóvão/Rio de Janeiro. 


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One thought on “Belchior, um gênio nas mãos de “bandidos"

  1. Caro Vicente Teles, num país onde a eguinha pocoto
    ficou na frente do Djavan! Onde grandes nomes da
    musica brasileira são levados ao ostracismo pela, pasmem, grande qualidade musical. Num país em que fazem das “letras” de musicas funk obras de arte o que se deve esperar?

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