Flávio Dino, governador do Maranhão: ‘O centro é essencial para a esquerda em 2020’

Em entrevista ao GLOBO, Dino também afirmou que ainda “há inúmeros caminhos a serem percorridos” até as próximas eleições presidenciais e explicou seu encontro com Luciano Huck

O Globo

Filiado ao PCdoB e reeleito com uma aliança de 16 partidos, o governador do Maranhão, Flávio Dino, defende uma frente ampla para superar a polarização nas eleições municipais deste ano — ele projeta que a divisão entre o bolsarismo e o lulismo ficará “bastante viva” durante a disputa pela preferência dos brasileiros.

Em entrevista ao GLOBO, Dino também afirmou que ainda “há inúmeros caminhos a serem percorridos” até as próximas eleições presidenciais, em 2022, e explicou seu encontro com o apresentador Luciano Huck (a reunião gerou reação em setores da esquerda): “O fato de ele não integrar a esquerda não significa que não devemos dialogar”.

Como será a atuação dos partidos de esquerda e do PCdoB nas eleições municipais deste ano?

A eleição de 2020 será um teste para todos os partidos porque será a primeira eleição na História sem coligações para vereadores. Claro que para os partidos que têm desempenhos eleitorais menores, o desafio é ainda maior. Nós estamos investindo em chapas próprias. De um modo geral, especialmente no Maranhão, eu vou participar e vou apoiar os candidatos do partido e das legendas aliadas, que no nosso estado são 16 (entre elas DEM, PT, PP, PR, Solidariedade e PRB). Nacionalmente, de acordo com as alianças que o PCdoB fizer, estou à disposição.

Como não repetir o fracasso de 2018 nas urnas?

É fundamental que tenhamos espírito de humildade e de diálogo. Muita abertura para promover uniões entre o campo da esquerda, o campo progressista, e também alcançando forças políticas que estão externas ao nosso campo, como os setores liberais, chamados de partidos de centro. A meu ver, eles são essenciais para que a gente possa ter vitórias eleitorais importantes em 2020.

O antipetismo pode atrapalhar uma frente ampla?

As alianças partidárias e políticas são fundamentais porque são expressões de segmentos da sociedade. Quando você rejeita ou hostiliza partidos ou lideranças está, na verdade, hostilizando segmentos sociais que são representados por esses partidos. É evidente que você não pode perder identidade. Tem que ter identidade e lucidez programática. Com base numa identidade definida, quem quiser apoiar esse programa, no nosso caso, voltado ao combate de desigualdade, distribuição de renda e defesa dos direitos dos mais pobres, pode somar. Não vamos inverter uma situação de perda de espaço e transformar isso em um ciclo de novas vitórias se tivermos um sentimento isolacionista.

Como superar esse sentimento?

O ano de 2018, de fato, foi um momento muito difícil para o nosso campo político porque viemos de uma sequência de derrotas, sobretudo após a votação do impeachment da presidente Dilma (Rousseff). Houve uma sequência de dificuldades agudas, que já se manifestaram nas eleições de 2016, quando perdemos prefeituras importantes, a exemplo de São Paulo. O pior momento foi 2018. Minha expectativa neste ano é de recuperação. Nossos resultados eleitorais serão melhores do que o que tivemos na eleição municipal anterior. O desgaste do próprio governo Bolsonaro contribui para isso. Estamos chegando ao quinto ano que estamos fora do governo, desde o impeachment, e vemos que persistem problemas gravíssimos econômicos e sociais, a exemplo do desemprego.

Bolsonaro e Lula serão os principais cabos eleitorais desta eleição?

Sem dúvida, o bolsonarismo e o lulismo são correntes políticas hegemônicas na vida brasileira atualmente. A polarização do segundo turno das eleições de 2018 ficará bastante viva em 2020. É claro que são 5.570 cidades no Brasil e há também fatores locais. É da natureza da eleição municipal que esses fatores tenham predominância, mas, sobretudo nas grandes cidades, essa clivagem nacional terá grande relevância eleitoral.

O senhor se reuniu com o apresentador Luciano Huck. Há alguma perspectiva de aliança política?

Eu tive uma reunião com o Luciano Huck e gostei muito. Achei positiva a preocupação que ele tem de estudar os problemas do Brasil, refletir. Ele tem tratado muito sobre temas ligados ao combate à desigualdade. É claro que ele se situa em outro campo político. Não é um quadro, uma liderança, que busca se construir na esquerda. Mas o fato de ele não integrar a esquerda não significa que não devemos dialogar. Mantive essa reunião e vou continuar mantendo, como tenho quase semanalmente com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para troca de ideias. Devemos conversar com aqueles que neste momento nos ajudem na defesa do estado democrático de direito. Não houve nenhum tipo de debate com o Huck, nem da minha parte, nem da parte dele, sobre a eleição de 2022 por uma razão prática: estamos em 2020. Seria um debate destituído de objetividade, uma vez que daqui até lá há inúmeros caminhos a serem percorridos.

Setores da esquerda reagiram à sua reunião com Huck. O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) afirmou que o senhor estará com Lula ou Haddad.

Eu prefiro o Luciano Huck conversando comigo do que conversando com o Bolsonaro. Sobre a declaração do deputado Paulo Teixeira, achei um gesto simpático, de respeito, amizade, até por causa da história de aliança que temos com o PT desde 1989, desde a primeira candidatura de Lula. É normal que o nosso candidato preferencial seja o PT, assim como outros partidos de esquerda como o PSB, o PDT. Defendo uma frente orgânica, uma reorganização da esquerda, e é claro que só é possível imaginar isso com o PT, jamais contra o PT, mas sem que haja uma imposição de liderança A ou B ou de partido A ou B.

“No Maranhão as obrigações estão sendo cumpridas”, afirma Flávio Dino em entrevista à Difusora

Flávio Dino afirmou que o Maranhão vai cumprir neste mês de dezembro cinco anos seguidos de salários pagos pontualmente aos servidores do Estado

O governador Flávio Dino afirmou, na noite de ontem (18), durante entrevista no programa Ponto & Vírgula, da Difusora FM, que o Maranhão vai cumprir neste mês de dezembro cinco anos seguidos de salários pagos pontualmente aos servidores do Estado – mesmo com a forte crise econômica que atinge o Brasil.

“De fato, a crise nacional continua a existir, uma crise profunda. Mas aqui no Maranhão as obrigações principais estão sendo cumpridas. Pagamos o 13º e, neste mês ainda, vamos completar 60 meses de pagamento em dia para os servidores do Maranhão. É uma obrigação nossa, mas tem gente que não está dando conta dessa obrigação. E ainda bem que a gente está conseguindo cumprir esta e outras obrigações”, afirmou.

Na entrevista, o governador afirmou que novas obras começarão a ser entregues a partir do próximo ano – a exemplo do que vem sendo feito desde 2015 no Estado.

“Vamos ter em 2020 a ampliação do Parque do Rangedor, preservando o meio ambiente. Não utilizamos nem 5% do parque para os equipamentos [já existentes]. Noventa e cinco porcento do parque está protegido – e agora protegido pela população também, que usa o parque”.

Ela ainda citou, entre as entregas para os primeiros meses de 2020, a reforma completa da RFFSA, no Centro Histórico da capital. Outras grandes obras também estão sendo feitas ou serão feitas em diversas regiões do Estado. Entre elas, está o Hospital de Urgência e Emergência de Imperatriz. Outro exemplo é o Hospital da Ilha, que está com obras aceleradas no Turu, em São Luís. Serão 180 leitos na primeira fase, podendo chegar a 320 na segunda etapa.

Para 2020 em diante, a prioridade na educação, além de continuar entregando Escolas Dignas, é ganhar cada vez mais qualidade.

“Hoje este é o nosso foco. Vamos continuar o programa de infraestrutura na educação, mas sobretudo vamos trabalhar pela consolidação da retomada da qualidade, mediante a mensuração do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)”, disse.

Flávio Dino será entrevistado do Roda Viva desta segunda-feira (23)

O Roda Viva com Flávio Dino vai ao ar segunda-feira (23), às 22 horas

Um dos nomes dos mais cotados para disputar a Presidência nas eleições 2022, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), voltará ao centro do Roda Viva. Na segunda-feira (23), às 22 horas, ele será o convidado do tradicional programa de entrevistas da TV Cultura. Trata-se da segunda participação de Dino no Roda Viva – ele já foi entrevistado, em novembro de 2014, poucas semanas depois de ter sido eleito governador.

A escolha do político do PCdoB foi elogiada pela crítica de TV Cristina Padiglione, do Telepadi. “Dino tem sido nominalmente atacado pelo presidente Jair Bolsonaro, que hoje conta com a subserviência editorial da Record, do SBT e da RedeTV!, três redes de televisão com cobertura por todo o Brasil. Nessas três emissoras, por exemplo, o governador do Maranhão normalmente é citado apenas pelas referências do presidente”, afirmou Cristina.

Neste ano, Flávio Dino marcou presença em uma série de programas de entrevistas, como o Ponto a Ponto (BandNews), o Diálogos (GloboNews) e o Canal Livre (Band). Em 1º de setembro, após participar do 10º Encontro Sindical do PCdoB, ele concedeu um depoimento exclusivo ao Portal Vermelho. Já no dia 9, foi a vez de o governador maranhense ser entrevistado no Painel Haddad.

Carta Capital: Comunista, cristão e paraíba, descubra o governador Flávio Dino

O governador Flávio Dino concedeu entrevista para a Revista Carta Capital

O século 20 mal tinha começado quando o pai do pai juntou as tralhas e navegou 4.670 quilômetros pelos afluentes do Rio Amazonas, entre Itacoatiara e Belém, para estudar Direito. Na mesma época, o pai da mãe fez as malas em Portugal, cruzou o Atlântico e uniu-se aos negócios de um tio em São Luís. Veio acompanhado de dois irmãos, José e Joaquim. Ele, o Manoel dessa história. O acaso precisaria de quatro décadas para levar o rio ao encontro do mar. Sálvio, filho do amazonense, esbarraria em Rita, filha do português, corriqueira união de raças e culturas que deu origem ao Brasil. E que deu, neste caso específico, em Flávio Dino, alçado à condição de o mais ilustre “paraíba” por obra dos desatinos de Jair Bolsonaro, detentor de um arsenal inesgotável de ofensas e golpes baixos. “Com muito orgulho”, responde o governador da “Paraíba do Norte”, ou melhor, do Maranhão. “Se ele pretendia me intimidar, enganou-se. Não tenho medo de nada e de ninguém.”

Fosse outro o político, a frase acima soaria como uma resposta retórica no calor de um embate, jogo de cena para a base de apoio. Dino tem dado, porém, mostras de um destemor raro entre as lideranças de oposição. Enquanto muitos se escondem, silenciam ou preferem os floreios, o governador do Maranhão faz questão de intervir no debate público sem meias palavras. Tornou-se, em consequência, referência no campo oposicionista e alvo dos adversários. Não espanta, portanto, que Bolsonaro mire o governador e não outros expoentes da oposição. São duas as armas esgrimidas por Dino com talento, humor e o Twitter.

Na segunda-feira 29, após o ex-capitão fazer troça do assassinato do pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, desaparecido político durante a ditadura, ele não tardou a prestar solidariedade nas redes sociais a Felipe Santa Cruz. “O terrível assassinato do pai de uma pessoa não deve servir de arma para a politicagem. Quando o infrator da regra civilizacional é o presidente da República, mais grave é o fato.” Santa Cruz, ressalte-se, será homenageado pelo governo do Maranhão. Horas depois, viria a público um manifesto a favor da demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça, por conta da manifestada intenção de destruir provas colhidas na investigação dos hackers. Redigido por Dino, o manifesto receberia a adesão de Guilherme Boulos e Roberto Requião, entre outros. 

O governador é uma máquina de declarações espirituosas e tuítes sinceros. Ao receber uma fita vermelha do Senhor do Bonfim na entrada da reunião dos governadores do Nordeste em Salvador, brincou com a baiana: “A senhora escolheu a minha cor preferida. É boa essa proteção, tem muita gente do mal espalhada pelo Brasil”. Sobre Bolsonaro, já disparou: “Tem um insano no comando do País que lidera uma minoria sectária”. A dois entrevistadores que imaginavam constrangê-lo ao perguntar se ele era “comunista” e se era “comunista de iPhone”, saiu-se com essa: “Comunista, graças a Deus. E, sim, quero a tecnologia para todos. Defendo a partilha, a justiça social”. Ao saber que o vice-governador de Alagoas viajara a Pequim, soltou: “Sou um comunista de araque. Nunca fui à China, nem à Coreia do Norte, nem a Cuba”.

No fundo, Dino é mais cristão do que comunista. Nutre uma devoção particular por São Francisco. Para provar, exibe a imagem do santo presa por uma corrente em volta do pescoço. “Estou sempre com ele. Uma das maiores emoções da minha vida foi visitar seu túmulo na Itália.” O gabinete no Palácio dos Leões parece um santuário. As imagens de São Francisco e de Nossa Senhora predominam, protegidas por bustos de Salvador Allende, Ho Chi Minh e Che Guevara. Na ampla sala de reuniões ao lado, a Bíblia sustenta a Constituição, e vice-versa. Não raro, o governador recorre a versículos, em especial do Novo Testamento, para corroborar suas teses ou simplesmente produzir um efeito retórico. Lembrar que a defesa da igualdade é antes de tudo um preceito do Cristianismo talvez embaralhe a mente dos interlocutores dispostos a acreditar que os comunistas vivem a devorar criancinhas. “Sou a síntese do socialismo moreno, como repetia o Brizola”, brinca.

Aos 51 anos, o socialista moreno do Maranhão representa uma realidade do Nordeste que Bolsonaro e uma parte significativa do Centro-Sul desconhecem e menosprezam. A crise econômica e social iniciada em 2015 deixa suas marcas – o desemprego e a miséria voltaram a assombrar a região de maneira mais aguda do que no resto do País –, mas a memória dos avanços da última década e meia continua aguçada. E não se trata apenas da melhora das condições de vida. Nenhuma outra parte do Brasil experimentou uma renovação política tão profunda. As oligarquias que dominaram o Nordeste durante o século XX praticamente desapareceram.

Leia a matéria completa da Revista Carta Capital

“O presidente externou uma visão de preconceito, de ódio”, comenta Flávio ao O Globo

Flávio Dino comentou declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro e sobre o cenário nacional

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), afirma que o presidente Jair Bolsonaro é “insano” e lidera uma “minoria sectária” que pretende “criar confusão e dividir o país”.

Na sexta passada, o presidente foi gravado usando um tom pejorativo ao se referir ao governador, em conversa com o ministro Onyx Lorenzoni. “Daqueles governadores ‘de paraíba’, o pior é o do Maranhão. Tem que ter nada com esse cara”, disse Bolsonaro.

Na opinião de Dino, o presidente dá declarações “extremistas” para esconder seu “mau governo”. Reeleito numa coligação que juntou 16 partidos, do PT ao DEM, ele defende a formação de uma frente ampla contra o bolsonarismo nas eleições municipais de 2020.

O GLOBO: O que o sr. achou da fala do presidente?

FLÁVIO DINO: Foi a prova que tem um insano no comando do país. Há um método instalado no poder central. É um método de discriminação, de perseguição e de preconceito. O presidente externou uma visão de preconceito, de ódio. E reiterou essa visão em outro vídeo, dizendo que todo nordestino é “pau de arara” e “cabeça chata” (em live com o ministro Tarcísio Freitas, na quinta à noite). Isso nada mais é que a repetição de tratamentos pejorativos para menosprezar uma região que concentra um terço da população brasileira.

E o fato de ser descrito como o pior dos governadores?

DINO: Não me abalei. Não é a opinião do presidente que baliza as minhas ações. Fui eleito duas vezes em primeiro turno, em 2014 e 2018. Isso confirma que temos apoio da maioria da sociedade no nosso Estado. Em uma semana, nosso governo teve mais resultados que o dele em 200 dias.

O sr. vinha evitando o confronto com o Planalto. Ficou surpreso com o tom do presidente?

Fiquei, porque foi uma agressão gratuita. Não havia nenhum episódio que justificasse esse nível de agressividade, de perseguição e de retaliação. Eu e os demais governadores de partidos de oposição temos procurado praticar a boa política republicana. Com o direito à crítica, garantido na Constituição, e o diálogo institucional, a favor de tarefas de interesse comum. Essa agressividade não é da tradição brasileira. João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar, manteve relações institucionais com governadores de oposição, como Franco Montoro (SP) e Leonel Brizola (RJ).

O sr. teme retaliações práticas ao seu Estado?

Espero que não. Não quero nenhum tipo de privilégio, só o que está garantido na Constituição e nas leis. Se essa retaliação se confirmar, vou usar todos os meios para proteger os interesses de sete milhões de pessoas. Ele disse para não “dar nada para esse cara”, como se eu pedisse alguma coisa para mim. Nunca pedi e nunca pedirei. O que ele quis dizer foi para não dar nada à população do Estado, e isso viola os artigos 19 e 37 da Constituição. Até achei engraçado o termo. Agora vou cantarolar aquela música do Roberto Carlos, “Esse cara sou eu”. O presidente me promoveu, criou um jingle para mim.

Leia a entrevista completa do jornal O Globo

“Numa época de medo e ódio, o pensamento da direita encontra terreno fértil para crescer”, afirma Flávio Dino

Flávio Dino concedeu entrevista ao site The Intercept Brasil

Apesar de frequentemente ser apresentado como “comunista”, Flavio Dino, governador do Maranhão, está em uma batalha na direção oposta ao radicalismo. Ele quer o centro. Único governador eleito do PCdoB e visto como uma das lideranças mais promissoras da esquerda, Dino defende uma “união ampla” com o centro democrático como única maneira de enfrentar o autoritarismo de Jair Bolsonaro. Foi uma ampla coalizão – que juntou, no total, 16 partidos – que possibilitou que o ex-juiz federal se tornasse governador do Maranhão. A vitória de Flávio Dino nas eleições de 2014 colocou fim aos 56 anos da dinastia dos Sarney no Maranhão – e foi uma das poucas conquistas eleitorais da esquerda, que tem amargado sucessivas derrotas.

Mas Dino não rompeu com os oponentes. Pelo contrário: os tem chamado para conversar. Na final de junho, ele se reuniu com o ex-opositor José Sarney para discutir os rumos da democracia brasileira – encontro que também já fez com os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula, que visitou na prisão. No comando do estado com o segundo pior IDH do Brasil, Flávio Dino aumentou o investimento estatal em segurança e educação e aumentou o piso salarial dos professores para R$ 5.750 – é mais do que o dobro do valor pago em São Paulo, estado mais rico do Brasil. Na contramão da crise econômica, o Maranhão também teve um crescimento do PIB de 9,7% em 2017 e, no ano passado, de 2,8% – acima da média nacional. Em 2018, Dino foi reeleito no primeiro turno com 59% dos votos válidos – mais ou menos o mesmo índice de aprovação de seu governo naquele ano.

Conversei com Flávio Dino no final de maio. Alto, corpulento e de voz forte, o governador me recebeu na sala de reuniões do Palácio dos Leões, no centro histórico de São Luís, sede do governo estadual. Em 1h10 de conversa, só tomou água e recusou o café. Embora a conversa tenha ocorrido dias antes das primeiras reportagens da série Vaza Jato, o governador e ex-juiz federal criticou duramente a atuação de Sergio Moro que, assim como ele, trocou a magistratura pela política. Dino foi juiz federal no Maranhão por 12 anos e chegou a presidir a Associação dos Juízes Federais do Brasil, a Ajufe, entre 2000 e 2002. Abriu mão da toga para se filiar ao PCdoB em 2006, mesmo ano em que se elegeu deputado federal.

Para o governador e ex-juiz, a operação Lava Jato se transformou em instrumento de luta política, responsável por danos econômicos – no caso da Petrobrás – e prisões injustas, como a de Lula. Ele crê que a legitimidade da atuação de Moro, que já era frágil, foi jogada por terra no momento em que ele aceitou ser ministro de Bolsonaro. “Tão absurdo que jamais esperava que isso fosse acontecer”, ele me disse. Mas Dino não considera a operação “totalmente errada. “Acho até que a maioria das sentenças da Lava Jato eu assinaria.”

Intercept – O senhor tem dito que a esquerda perdeu a batalha política da classe média, que por sua vez aceitou a pauta da corrupção como a fonte de todas as tragédias sociais e políticas brasileiras. Qual a saída para isso?

Flavio Dino – A corrupção de fato é um tema essencial, não há dúvida, portanto superá-la é importante para o Brasil. Porém, temos que fazer isso com autenticidade, com seriedade. Por isso mesmo, a corrupção não pode ser utilizada como arma de luta política e nem pode ser reduzida a determinados aspectos da vida brasileira, uma vez que as corrupções são variadas e a principal delas acabou sendo ocultada nos últimos anos, que é a corrupção da desigualdade social.

Nada corrompe mais o Brasil do que a desigualdade, a concentração de renda, poder e conhecimento nas mãos de poucas pessoas. Então, a esquerda não deve fugir do tema da corrupção. Esse tema é nosso, na verdade. Nós não podemos permitir que esse tema seja apropriado e ao mesmo tempo manipulado para ocultar outros problemas da sociedade brasileira. A principal saída é nós retomarmos essa bandeira, que nos pertence, na medida em que somos nós que defendemos a justiça social, que os recursos públicos sejam aplicados em favor da maioria do povo.

Leia a entrevista completa do governador Flávio Dino ao site The Intercept Brasil.

“Câmara melhorou trechos polêmicos da Reforma da Previdência”, diz Dino em entrevista

Flávio Dino considerou que Câmara melhorou muito a proposta inicial, retirando trechos polêmicos

Em entrevista ao Jornal da CBN, na manhã desta segunda-feira (15,) o governador Flávio Dino (PCdoB) falou sobre e reforma da Previdência, sobre os pontos retirados da proposta inicial e afirmou que os governadores tentaram intensamente na Câmara um acordo com deputados federais para que estados e municípios fossem incluídos no texto da reforma, mas, se o Senado decidir que de fato eles ficarão fora, não haverá problema em dialogar com os deputados estaduais e aprovar um novo texto.

Flávio Dino considerou que Câmara melhorou muito a proposta inicial, retirando trechos polêmicos como o BPC, aposentadoria rural e capitalização. Mas, em sua avaliação, ainda há pontos injustos, como a solução dada para pensões por morte. “Não há dúvida que a Câmara dos Deputados melhorou e muita a proposta do Governo Federal, que era, realmente, muito anti-social, antipopular. A Câmara avançou em cláusulas que davam prejuízos graves aos mais pobres, como o BPC para idosos sem renda, para pessoas com deficiência, para o trabalhador rural, como também sobre a capitalização que interessava apenas aos bancos, tudo isso foi retirado, acho contudo, que é presico retirar muito mais. Temos o 2º turno na Câmara e o Senado para tratar de outros pontos, como os que mencionei, por exemplo a dureza dos cortes na pensão das viúvas”, disse.

Questionado sobre a não inclusão de estados e municípios na reforma e da necessidade de uma reforma no Maranhão, Flávio Dino afirmou que “muitas partes da reforma serão aplicadas no Estado. A contribuição previdenciária dos servidores públicos da União é o parâmetro para estados e municípios e assim, todos serão obrigados a se adaptarem. Se for aprovada nesses termos, é obrigatório que o estado do Maranhão, assim como todos os estados e municípios se adaptem a Lei maior do país que é a Constituição Federal. No Maranhão quando tivermos o resultante do complexo processo, certamente, mandaremos algum tipo de projeto para a Assembleia Legislativa, não só eu, como os demais governadores, e algumas coisas, nós teremos aberturas e não faremos, nós iremos fazer um balanceamento, uma calibragem, melhor para que não haja sacrifício sociais. Cito logo que no Maranhão nós não vamos fazer um corte tão duro em pensões por mortes, nós tendemos a manter um sistema mais justo” afirmou.

Osmar Filho anuncia seu nome como pré-candidato a prefeito em São Luís

Osmar Filho é um dos nomes do PDT que podem disputar a prefeitura da capital no próximo ano

O presidente da Câmara Municipal de São Luís, o vereador Osmar Filho (PDT), concedeu entrevista ao programa Ponto e Vírgula da Rádio Difusora FM e confirmou sua pré-candidatura à Prefeitura de São Luís, em 2020.

“É uma pauta que está bastante discutida, em virtude da aproximação do pleito, estamos a pouco mais de um ano para as eleições municipais e é claro, que os grupos políticos que têm o interesse em disputar começam a se movimentar e aqui eu deixo ao público meu interesse em disputar, mas claro, a gente está tratando de uma eleição majoritária, não um projeto individual, então nosso objetivo é mostrar para o grupo político que eu faço parte, que eu posso ser uma opção”, afirmou.

Osmar Filho é um dos nomes do PDT que podem disputar a prefeitura da capital no próximo ano. Ele compete com o vereador Ivaldo Rodrigues dentro do PDT, além de outros nomes do grupo Flávio Dino que pertencem a outros partidos.

O presidente concluiu deixando sua mensagem aos eleitores da capital. “Eu afirmo que estou a disposição, estou buscando criar esse cenário de viabilidade, para que meu grupo possa entender a mensagem, abraçar a causa e a gente monte um forte palanque e um projeto robusto para São Luís.”

A entrevista de Sarney, o conceito de verdade e as mentiras que antecederam os fake news

Na entrevista ao Correio Braziliense, Sarney coloca no centro da crise o desmanche institucional dos três poderes e a ascensão deletéria do 4º poder, o Ministério Público

Foi excepcional a entrevista do ex-presidente José Sarney a Ana Dubeux e Denise Rothenburg, do Correio Brasiliense. Sarney é um dos melhores analistas dos ventos políticos, não apenas o dia-a-dia da política, mas das modificações trazidas pelas transformações sociais e tecnológicas.

Sarney tem uma capacidade de análise que, por exemplo, falta a Fernando Henrique Cardoso.  Em cada tema, sabe identificar o ponto central e ter a explicação lógica para encaixá-lo no cenário mais amplo. É até curioso esse paradoxo, do político tido como paradigma do coronel político formular a análise mais sofisticada, enquanto o “Príncipe”, representante da inteligência paulistana não consegue sair dos bordões midiáticos, nesse jogo de “in” e “out” que caracteriza a pauperização do debate político. Falar em combater a pobreza é “in”. Combater a pobreza é “out”.

Em 2009 tive uma conversa com Sarney, na qual analisou com maestria a perda de influência do político para as organizações que surgiam da sociedade e da mídia para as novas formas de comunicação. Em plena pré-campanha eleitoral de 2010, cantou o fim do PSDB, por usar como única arma o discurso do ódio. O fenômeno das redes sociais ainda não se alastrara, não havia Lava Jato nem a epidemia dos fake news, presentes na nova análise de Sarney.

Na entrevista ao Correio Braziliense, Sarney coloca no centro da crise o desmanche institucional dos três poderes e a ascensão deletéria do 4º poder, o Ministério Público, e da pós-verdade, os fake news das redes sociais, que acabaram com a “verdade”. Não aprofunda o que seria esse conceito, a “verdade” antes dos fake news. E reside nesse conceito, da transformação de dogmas em “verdades”, da incapacidade de se ter uma visão sistêmica dos problemas nacionais, a raiz dos problemas brasileiros, a enorme dificuldade de renovar conceitos, de sofisticar análises, de interpretar a realidade.

A discussão pública brasileira jamais conseguiu ir além do bordão, do alvo único. Governar é abrir estradas; ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil; se um ajuste fiscal rigoroso derruba a economia, um mais rigoroso ainda trará o desenvolvimento. As análises dos “especialistas” sempre se moldaram aos interesses imediatos dos patrocinadores, pautando todas as discussões no período. E, como sempre havia uma intenção política por trás do debate público, amoldava-se a realidade e as teorias aos interesses dos patrocinadores.

Quando o receituário de Joaquim Levy fracassou, uma loucura de impor choques tarifários, cambial, fiscal, trancamento de crédito e explosão de juros simultaneamente, a alegação dos economistas é que não havia radicalizado o suficiente. E essa “verdade” era aceita pelo sistema, sem nenhuma necessidade de impulsionamento pelas redes sociais. Derruba-se Dilma, porque bastaria sua queda para tudo ser resolvido, e impõe-se a loucura draconiana da Lei do Teto, do desmanche da legislação trabalhista, sempre com a promessa futura de entregar o crescimento.

De lá para cá, aplicou-se a fórmula mágica do ajuste fiscal pró-cíclico. A economia atravessa o mais prolongado processo de recuperação da história e insiste-se na mesma fórmula mágica. Enfim, antes que a “verdade” fosse destruída pelas “verdades” dos fake news , o país já estava exposto ao imediatismo, ao pensamento primário, a ponto da “racionalidade” do mercado apostar em um completo imbecil para dar ao Brasil o destino manifesto. (Por Luis Nassif).